sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Frame by frame, ou página a página (continuidade do texto anterior) !

     O frame-by-frame, a pintura com sequência, pede uma leitura direcionada. Pode obviamente ser feita de outra forma, da forma que o espetador quiser, mas há uma sequência lógica pela nossa maneira ocidental de ver/ler o mundo, da esquerda para a direita, de cima para baixo. O frame-by-frame impinge então uma leitura orientada? Não parto do pressuposto da sua leitura, pela infinitude de espetadores = infinitude de leituras, mas quando fotografo faço-o da primeira à última. No desenho também. Escolho as folhas e o seu tamanho e vou desenhando da primeira à última foto. A pintura já não; estão todas na parede e vou acrescentando cores ao longo das pinturas, de trás pra frente e maioritariamente das vezes sem ordem. As cores das imagens ditam. É um trabalho do olhar que dita os espaços a pintar com x cor. Não olho para o todo da fotografia nem da pintura. São manchas que se vão colocando. No final sim há espaços fechados (o limite dos quatro lados da folha/pintura) e esses vão desvelando coisas. Sei que parece estranho estar a dizer que vejo coisas novas nas pinturas que acabei de fazer, mas o tempo da sua realização, que eu sem grande esforço executo com bastante velocidade, fazem com que "esteja noutra" quando as realizo e isso faz com que quando acabadas, se apresentem munidas de novidades. 

    Em paralelo, o diário gráfico e os seus amparos (desenhos/escrita/pintura) também se vão acumulando dessa forma e por isso, também eles, são reveladores para mim. Essa revelação aparece na maioria das vezes quando os estou a digitalizar ou os revejo (seja no computador, seja na cama). 

    Aprendi de uma forma inconsciente que a velocidade (energia utilizada para adicionar informação nestes formatos) faz com que se separe os momentos; ideia, vontade de fazer, realização e confronto com o dito acabado. Nos diários gráficos existe uma sequência, que na maioria das vezes não é pensada, mas tal como o frame-by-frame, é contaminada pela leitura, mesmo que não sendo ocidental, pois há uma página a seguir à outra. 

    No entanto, o diário gráfico, físico, ao contrário das pinturas (que eu faço), tem a sua informação toda condensada num só espaço, onde esta se rebate sobre ela própria, numa espécie de namoro forçado e eterno entre páginas. Ou seja, o diário é folheado de folha à folha, revelando aos poucos, balizado pelo espaço que o circunda e as mãos que o seguram, deixando em aberto o jogo do gato e do rato (procurar algo mais, conexões, surpresas...). As pinturas, estas por frames, mesmo que o olho vá seguindo e descobrindo aos poucos, vê, à partida no primeiro confronto, o todo, e depois pela aproximação, secciona o que o olho pretende ver/ler. Desta forma, o diário é mestre nas questões de tempo (nem que seja só pelo virar da página) e da veladura apresentada pela incapacidade de se ver o conjunto num todo. Será elucidativo explicar que não vejo os diários como objetos que começam na primeira e acabam na última página. Numero-os para me situar no tempo, não para seccionar o que lá foi feito. Posso dizer que são continuidade uns dos outros, tal como a vida. 

(um dia depois...)

E, com a ajuda de uma música nostálgica, existe só uma vontade inexplicável de sentir as coisas de formas para além das que me são dadas, das ditas normais. Quero a sensação de um copo de água fria a escorrer-me pelas costas num dia de inverno. Sem nenhum luxo extra. Bate com ainda mais força (frio) quando temos a certeza que conhecemos bem essa água, muito bem, tão bem para não necessitarmos de olhar mais para ela quando pegamos no copo onde se encontra, não necessitando de verificar a sua temperatura, forma, cheiro, cor. Bebo simplesmente. Com sorte, irei queimar-me. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

"And things comeback you see"!

    
    Antes de ir para França, e durante (2017-2020), o dia a dia e todas as tarefas que nele se desenrolavam ganharam uma importância quase extra ordinária. Quase porque tudo o é. Mas tenho que ser prático... Ganharam uma importância estética e conceptual mais aveludada. Provavelmente porque deixei de ter atelier. Atelier = Gruta. As grutas não são conhecidas por terem muitas luz. Pouca luz = Pouca clareza. Então, tudo o que não era atelier voltou-se-me, como se de uma coisa nova se tratasse. A verdade é que depois da universidade, depois da bolha (visível na falta de perceção da minha parte do "depois da tese" e na tendência da Arte em categorizar tudo e mais alguma coisa, até do que é e não categorizável) veio um ar fresco, novo, do presente, do aqui e do agora. É contraditório ao que tinha acabado de dizer mas muitas coisas o são. A verdade é que a tese e a escola afunilavam o meu dia à dia para o momento da defesa/tese. Ou seja, havia um objetivo a médio prazo, com tema, que focava o que me rodeava para este mesmo. Depois deste objetivo ser concretizado, o mundo abriu-se. O mundo era eu (penso que deixei de ser adolescente quando defendi a minha tese). A minha tese foi sobre Autorretrato e Auto representação e sinto que com a escrita e a releitura, o meu corpo e o que fazia/via se foi diluindo, de uma forma bastante saudável, com tudo o que se encontrava em meu redor. Eu como algo que deslizava num espaço deslizante com outras coisas que nele se iam deslizando. 
    Ao contrário da prática artística, o deslize não tinha pretensão/objetivos a ser o que quer que fosse (não era até à data a minha pesquisa/tentativa). Era simplesmente. E isso de ser, do que é, ponto, seduziu-me (ainda seduz) imensamente. Fez com que colocasse um valor extra a tudo o que fazia/faz parte deste preciso momento, independentemente do que seja, pois com a atenção tudo tem o seu devido valor.
    Valor...
    Valor... Porquê mais e menos? Porquê mais argumentos? Não pode ser, tal como elas são, somente o que são? A pintura/desenho/escrita são testemunhas (o Lira ajudou-me a esclarecer esta questão), para o outro, do meu interesse, do que vejo nas coisas, que na maioria das vezes não o fazem pela sua estética gloriosa, mas sim por serem o que são. 
    Então porquê esta vontade, este investimento de tempo em algo que tem o seu devido valor por ser o que é sem necessitar de mais, sem necessitar de mim para continuar a sê-lo? Poderia dizer que o é para o outro assim o ver, com mais cuidado, mais atenção, mas seria um argumento ingrato e depreciativo do outro (quem me diz que ele já não o vê assim ou até melhor? Porque necessita ele de o ver sequer? Porque eu acho que sim?) O que se tornava claro é que eu queria vê-lo. O desenho/pintura/escrita ajudam-me a vê-lo e a ver-me nele. Com tempo, com calma, com atenção ao detalhe e ao que me rodeia. Põe-me alerta. Ajuda-me a entender percepções que tenho das coisas. E essas percepções, que são fluidas e se inspiram pelas dos outros, moldam-me/nos. E é exatamente sobre isso que isto me interessa tanto, e isto resume-se a uma pequena questão; porquê? Porquê que vemos e achamos isto e aquilo? Porquê sim, não, bonito, feio? Não é simplesmente para obter respostas, mas, se questionar as percepções que tenho/conheço, dou possibilidade ao mundo que me rodeia de me mostrar que ele pode ser muito mais para além do que eu acho que ele pode. Coloca-me num libo entre a certeza e o desconhecido e o desenho/pintura/escrita ajuda-me a ver essas incertezas, essas nuances entre coisas que conheço e outras que vão surgindo.

(dois dias depois...)

    Existe no entanto uma noção da corrupção do (meu) sistema ocular, e de aquilo que eu já vi/ouvi/refleti. Mas sendo a visão esta minha arma, esta minha pedra no charco (que nunca se encontra parado), apoio-me nela para ver, mostrar e voltar a ver. Novamente, não no sentido de esclarecer mas de questionar (isto porque eu não sinto clareza ao ver o que vi e fiz, mas o contrário). O que é ironicamente insuportável, pois quanto mais faço mais confuso me sinto. Mas será também sintoma da busca, realçando a expressão "estás perdido meu filho" como sendo óbvia da nossa condição e do (meu) descontentamento com o que conheço. E num sistema tão bruto e linear (burocrático e cartesiano), o que destoa, mesmo que sendo pela sua linearidade absurda (how to make a ...), torna-se grão de areia na engrenagem dos nossos dias (abranda ou cria um gap (uncanny) entre o que é e o que não é). 
    E Será isso uma mais valia? Pergunto-me eu a mim próprio no meu atelier sossegado... Bem, retirando uma pseudo responsabilidade pelo que faço e apresento, a minha luta (de rosas, barriga cheia e pés quentes) torna-se mais fluída. Não tem objetivos, para além de eu querer ver e rever, esperando eu que com a intensidade a olho encontre coisas que ainda não tenham sido corrompidas.









"Como fazer uma tela (em 36 passos)"
Conjunto de pinturas realizadas a partir de fotografias que tirei, com a ajuda da Laura, em França, finalizadas em 2024, para uma exposição coletiva no posto de turismo das Caldas da Rainha.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Continua !

     

    Ela disse-me que não lhe disse nada sobre o livro que fez e me deu. Senti-me em falta. A verdade é que o trabalho dela não necessita de mais palavras, tal como a maioria das coisas, apesar deste ser como muitos poucos. Não sei o que dizer, se regurgitar palavras sobre algo tão rico será benéfico para o mundo e não apenas falso, forçado, sujo e/ou sem interesse. Não quero dizer mais coisas que não têm que ser ditas. Direi apenas - Continua. Sê tu própria. Obrigado. Deixa-me continuar a ter acesso a ti que em partes te vais colocando nos papéis e que por vezes resultam em livros.


Para a A.M.M., 1/12/25, Caldas da Rainha

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Voltaren e Flexiban!

     

    6h05, acordo com a sensação de estar atrasado mas tenho uma hora de avanço. Vou rápido buscar os sapatos ao armário e... lá voltou ela, aquela maldita dor nas costas que ninguém me sabe dizer o que é. Voltaren e Flexiban na boca, copo de água e uma banana. Disse à Laura - temos uma feira pela frente. No carro tento dormitar mas as conversas interessantes e a condução despreocupada deixam-me alerta. Chegamos, montamos, temos 10 minutos até o workshop começar. Eles chegam mas eu não estou lá. Estou pedrado, drunfado, como nunca antes tive. Questiono-me sempre sobre a vontade geral de apatia constante. O workshop passa, a feira começa. Couscous com pão e queijo. Mais um café. Sorrisos e abraços. Não me lembro de nada em concreto. Comi um filete de pescada no pão e outro no prato com arroz. Disse á senhora quatro vezes que era sem batata frita. Dormi ao lado da Laura, mas longe. Foi a primeira noite que o Tomé dormiu sem nenhum de nós.


29/11/25, Almada.

sábado, 1 de novembro de 2025

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Diário de bordo #83, parte 1 de 2 !

 




































Primeira parte, de duas, do Diário de Bordo #83 !
Feito no catálogo da Lezef de Marselha, 2018/2019, pintado de branco há uns anos atrás !

Há sempre imensa coisa a dizer, e ainda mais a desenhar. Posto isto (e as calças) o diário tem que estar sempre lá. Sempre !
A curiosidade e o deslumbre muitas vezes desconfortável do ato de desenhar e do que dele surge tem vindo a pedir tempo, presença, escala individual ...
Este caderno está repleto de apontamentos de encontros, com a Toc'andar, com o CAU, com e sem o Gui em Torino, na Feira da Alegria no porto, casas em idealização, cafés a sós ou acompanhado pelas vozes que lá habitam, e alguns desenhos feitos pelo Tomé, que vão salvando algumas destas páginas da estagnação !