O frame-by-frame, a pintura com sequência, pede uma leitura direcionada. Pode obviamente ser feita de outra forma, da forma que o espetador quiser, mas há uma sequência lógica pela nossa maneira ocidental de ver/ler o mundo, da esquerda para a direita, de cima para baixo. O frame-by-frame impinge então uma leitura orientada? Não parto do pressuposto da sua leitura, pela infinitude de espetadores = infinitude de leituras, mas quando fotografo faço-o da primeira à última. No desenho também. Escolho as folhas e o seu tamanho e vou desenhando da primeira à última foto. A pintura já não; estão todas na parede e vou acrescentando cores ao longo das pinturas, de trás pra frente e maioritariamente das vezes sem ordem. As cores das imagens ditam. É um trabalho do olhar que dita os espaços a pintar com x cor. Não olho para o todo da fotografia nem da pintura. São manchas que se vão colocando. No final sim há espaços fechados (o limite dos quatro lados da folha/pintura) e esses vão desvelando coisas. Sei que parece estranho estar a dizer que vejo coisas novas nas pinturas que acabei de fazer, mas o tempo da sua realização, que eu sem grande esforço executo com bastante velocidade, fazem com que "esteja noutra" quando as realizo e isso faz com que quando acabadas, se apresentem munidas de novidades.
Em paralelo, o diário gráfico e os seus amparos (desenhos/escrita/pintura) também se vão acumulando dessa forma e por isso, também eles, são reveladores para mim. Essa revelação aparece na maioria das vezes quando os estou a digitalizar ou os revejo (seja no computador, seja na cama).
Aprendi de uma forma inconsciente que a velocidade (energia utilizada para adicionar informação nestes formatos) faz com que se separe os momentos; ideia, vontade de fazer, realização e confronto com o dito acabado. Nos diários gráficos existe uma sequência, que na maioria das vezes não é pensada, mas tal como o frame-by-frame, é contaminada pela leitura, mesmo que não sendo ocidental, pois há uma página a seguir à outra.
No entanto, o diário gráfico, físico, ao contrário das pinturas (que eu faço), tem a sua informação toda condensada num só espaço, onde esta se rebate sobre ela própria, numa espécie de namoro forçado e eterno entre páginas. Ou seja, o diário é folheado de folha à folha, revelando aos poucos, balizado pelo espaço que o circunda e as mãos que o seguram, deixando em aberto o jogo do gato e do rato (procurar algo mais, conexões, surpresas...). As pinturas, estas por frames, mesmo que o olho vá seguindo e descobrindo aos poucos, vê, à partida no primeiro confronto, o todo, e depois pela aproximação, secciona o que o olho pretende ver/ler. Desta forma, o diário é mestre nas questões de tempo (nem que seja só pelo virar da página) e da veladura apresentada pela incapacidade de se ver o conjunto num todo. Será elucidativo explicar que não vejo os diários como objetos que começam na primeira e acabam na última página. Numero-os para me situar no tempo, não para seccionar o que lá foi feito. Posso dizer que são continuidade uns dos outros, tal como a vida.
(um dia depois...)
E, com a ajuda de uma música nostálgica, existe só uma vontade inexplicável de sentir as coisas de formas para além das que me são dadas, das ditas normais. Quero a sensação de um copo de água fria a escorrer-me pelas costas num dia de inverno. Sem nenhum luxo extra. Bate com ainda mais força (frio) quando temos a certeza que conhecemos bem essa água, muito bem, tão bem para não necessitarmos de olhar mais para ela quando pegamos no copo onde se encontra, não necessitando de verificar a sua temperatura, forma, cheiro, cor. Bebo simplesmente. Com sorte, irei queimar-me.






































































