A verdade é que, bem, apetece-me, necessito, preciso de escrever. Tenho esta sensação...
Entendo a importância do espaço, da coisa sem explicação. Mas a escrita é uma ferramenta que me dá uma certa concretude. Não que responda, mas é importante entender que estou perdido e que há várias frentes, onde me posso virar, mesmo não tendo a certeza que alguma me vá salvar, salvaguardará.
E aqui volto a um lugar conhecido e reconhecido, a produção dá-me a possibilidade de ver. E é a partir desta capacidade que eu me coloco. O jogo é matreiro e pouco grato, não há regras, quando as pode haver jogo com a sua transgressão e nada disso me sacia de verdade. Sinto-me sempre em dívida para com o tempo. Esta forma tão capital de ver as coisas corrói-me por dentro. Escrevo e rescrevo coisas que já escrevi e reescrevi. As imagens vão-me pedindo palavras e as palavras novas imagens.
Há uma tensão apaixonante, esta que me deixa com a sensação de ter o coração a querer sair-me pela garganta, que me faz querer ver tudo, ler tudo, penetrar e ser penetrado por tudo. - "Quantas mais armas melhor", diz ao meu ouvido uma voz interior pouco concreta mas muito presente. Há sempre mais possibilidade, é um abismo maravilhoso!
Tento colocar tudo num só lugar. Tudo descrito, detalhada, em pastas que abrem mais pastas e nada d'aquilo soa a algo claro. Sou a partes de mim mas pode sempre ser mais e de outra forma. Então as palavras, tal como as imagens, aparecem soltas, por ali, a repetirem-se algures num texto que outrora escrevi. As sensações não mudam muito, a sua forma (o que lhe dá aso) sim.
Há uns textos atrás culpava a minha avó materna e a minha mãe por esta minha insaciedade de ver e de fazer. A culpa desta produção sem fim que mesmo não sendo arranja maneira de o ser. Não sei se a culpa é realmente delas, já sou crescido, já me deveria deixar destas merdas de culpar os outros.
Crio memórias para mim mesmo. É a forma mais concreta que arranjo para me lembrar do que fiz.
Escrevi isto num caderno que venho de redescobrir (é sobre um livro que tenho na gaveta que teima em não querer sair); Vivemos num mundo sem memória. A partir de agora, já não existem mais memórias. Vivemos num mundo sem fundação para que se possam criar memórias. Há mais fotografias do que nunca, sendo a fotografia um médio por excelência no que toca a criar memórias. É no entanto irónico haverem cada vez menos memórias. Em grande parte porque vivemos no passado ou no futuro sem dar margem para o presente existir. Sem ele, tudo se torna pouco vivido. Há um poema do Álvaro de Campos que fala sobre o presente e ele querer viver nele a um ponto deste não ser algo (nome/ideia) mas ser apenas... Às vezes dou por mim a questionar o desenho, a pintura, os livros, fotografias, textos... e dou por mim a repetir a afirmação do; - Faço-o para que provar a mim mesmo que estou vivo. Há também vontade em dialogar, mas essa ideia é de certa forma pouco humilde. Olhando então para o que faço, em parte, como testemunhos, penso na questão da memória e da sua importância. Este objeto (o livro que não quer sair da gaveta) é sobre isso, sobre as coisas que estavam e que já não estão. (Algures em 2024).
Numas páginas perdidas do mesmo caderno, escrevi: "É importante ires incorporando texto ao longo das imagens... o texto não tem obrigatoriamente de ter um princípio, meio e fim. Acho importante alguns textos interromperem outros temas."















































































